
Mais um encontro familiar. Sou um dos abençoados que possui uma família verdadeiramente unida (a do lado do pai, isto é), ligada por fortes laços, não só sanguíneos, mas de puro amor, amizade, respeito e sinceridade.
Adoro, de facto, estar reunido com a minha família. Sempre adorei e faz-me falta tal sensação.
Mas agora, mais crescido, novas sensações surgem.
De certo modo, sinto-me na margem desta família, que na verdade não me conhece completamente. Tento ser a imagem idealizada que eles têm de mim, quando não o sou. E por vezes, mesmo nos momentos mais felizes, estas sensações assomam à superfície como uma bolha de ar no oceano.
Hoje, enquanto me deliciava com o lanche, senti uma nova sensação. Senti que precisava de ter alguém a meu lado nestes encontros familiares. Senti que precisava que ele estivesse a meu lado, ali, partilhando dessa alegria que caracteriza tais encontros. Por momentos, deixei-me levar neste sonho praticamente utópico.
Imaginei-me sentado a seu lado, durante o almoço, admirando-o enquanto ele falava com os meus familiares. Sei que é extremamente inteligente e que facilmente enceta uma conversa culta sobre qualquer tema. Devido aos últimos acontecimentos, imaginei-o a falar de carros com os meus tios... ou de política. Eles falavam prazeirosamente com ele e sorriam-lhe, e a mim também, pois compreendiam perfeitamente que estavamos os dois felizes. Imaginei-me a tocar-lhe na perna por debaixo da mesa e ele deitar-me um olhar de cumplicidade. Nesse momento, eramos interrompidos por uma das minhas tias que lhe perguntava se queria arroz e lhe estendia a travessa. Ele servia-se, depois, com a gentileza que sei que o caracteriza, servia-me também. Comiamos. Eu sorria-lhe, ele sorria-me e tudo estava tão bem e tão simples...
Saio do súbito sonho com um estúpido sorriso no rosto, no qual (graças a Deus) ninguém repara. E, então, percebo que ele não está ali. Estou sozinho, à margem, ansiando pela utopia. Entrego-me ao bolo de iogurte de ananás que a tia fez, resignado...
Mas em mim, apesar da realidade ser amarga e dura, ficam migalhas desse sonho acordado. Fica a esperança de, um dia, ver este ingénuo cenário realizado.
Ele e eu.
Ele e eu, livres e aceites, a comer arroz e a olhar nos olhos um do outro... em mais um encontro familiar.